Balão intragástrico : Será mesmo que funciona ?

Aproveito este nosso encontro virtual para refletir sobre as indicações e efeitos do Balão intragástrico para o tratamento da obesidade. Confesso que já vinha pensando no assunto motivado pelos inúmeros telefonemas e consultas que recebo na nossa clínica à procura do tal dispositivo para emagrecer e definitivamente me vi obrigado a discuti-lo quando ganhou espaço em mídia leiga, digo, noticiado no último Fantástico da rede Globo e em páginas da revista Veja.

O Balão intragástrico é um dispositivo de silicone que é introduzido vazio no estômago do paciente através de um procedimento de endoscopia. O paciente é sedado, com a presença de um anestesista e num ambiente de centro cirúrgico, com duração de 30 a 60 minutos de procedimento. O endoscopista insufla o balão com um líquido azulado através de um catéter que permanece acoplado ao balão após a retirado do endoscópio. Caso o balão sofra um rompimento , o paciente passa a urinar azulado e este é o sinal para retornar rapidamente ao médico para retirada do balão.

O catéter para insuflação é então retirado , permanecendo o balão que agora ocupa de 1/3 a metade do estômago do paciente. Após 4 a 6 meses ele deve ser retirado através de técnica semelhante a da sua colocação e não se pode por outro.

O paciente experimenta alguns sintomas como cólica, náusea, vômitos e refluxo, principalmente na primeira semana, controlados com ajuda de medicamentos. Algumas vezes estes sintomas são muito evidentes, não respondem ao tratamento medicamentoso e o balão tem que ser retirado antes do prazo.

O objetivo do balão é ocupar parte do estômago do paciente e trazer saciedade mais precocemente, funcionando como um coadjuvante da dieta e de exercícios físicos no combate a obesidade. Porém, o objetivo maior é que o paciente neste período de utilização do balão aproveite para mudar os seus hábitos e que isto se mantenha após a retirada para que a perda de peso continue, ou seja , o balão poderia funcionar como um impulso para que o paciente se empolgue e se envolva com o tratamento.

As indicações para utilização do balão intragástrico no tratamento da obesidade são as mesmas que as indicações de tratamento cirúrgico, como consta nas diretrizes do Conselho Federal de Medicina , ou seja , pacientes obesos mórbidos , definidos como portadores de índice de massa corporal maior que  40 Kg/m2 ou pacientes obesos grau II , definidos como portadores de índice de massa corporal maior que 35 kg/m2 porém na presença de comorbidades como Hipertensão arterial, Diabetes, distúrbios do colesterol e triglicerídeos, infiltração gordurosa do fígado, etc.

Chegamos a hora da reflexão: Se a obesidade é uma doença de origem genética, ou seja, crônica, será que uma ajuda temporária como o balão vai resolver o problema ? A resposta é clara e documentada em inúmeros trabalhos científicos – O Balão se mostrou ineficaz em ajudar os pacientes candidatos a cirurgia bariátrica em controlar a obesidade   a longo prazo.

Se o Balão não funciona para os pacientes que justamente as diretrizes de uso indicam, quem está utilizando então? A resposta também é clara - Pacientes com obesidade inicial (índice de massa corporal maior que 30 kg/m2 ) que são os grandes órfãos de tratamento para obesidade, pois apenas dispõem dos tratamentos clínicos para o combate a esta doença de difícil controle.

Acontece que como tudo em medicina, neste caso “estética” , pois já não falaremos mais em obesidade doença, estamos vendo  a indicação extrapolar para pacientes somente com sobrepeso (índice de massa corporal maior que 25 kg/m2) como o caso citado no Fantástico de uma noiva que utilizou o balão para caber no seu vestido de casamento e após a retirada do dispositivo já havia retomado boa parte do peso que perdeu – Será que ela entendeu errado os objetivos do balão ? Será que ela imaginou um dispositivo que a fizesse emagrecer e não ela entrar num projeto de perda de peso ? Será que o médico agiu de má fé ao indicar o uso do balão ? Será que o balão não funciona ?

Por isso , meus amigos, algumas dicas podemos citar:

1-O balão não funciona na imensa maioria das vezes para os pacientes com indicação de cirurgia Bariátrica, resultados divulgados em inúmeros trabalhos científicos e comprovados pela nossa experiência em já ter operado inúmeros pacientes que já utilizaram o dispositivo.

2-O balão se mostrou mais eficiente em ajudar os pacientes com obesidade inicial associado a orientação nutricional e a prática de exercícios físicos que o tratamento clínico isolado. Achamos que esta seria a grande indicação para o Balão atualmente, porém ressaltando a necessidade de acompanhamento com equipe multidisciplinar, de mudança de hábitos alimentares e atividade física para se manter o resultado a longo prazo. Também devemos lembrar que não se espera uma grande perda ponderal.

3-A utilização do balão em pacientes com sobrepeso não deve ser encorajada, uma vez que não são portadores de doença obesidade, não se trata de um procedimento totalmente isento de riscos e na realidade, o que estes pacientes precisam é de uma boa orientação endócrino-nutricional para resolução do problema- milagres não existem....

4-O balão pode ser usado em super obesos , pacientes portadores de índice de massa corporal maior que 60 kg/m2 , como preparo pré operatório. Sabidamente, estes apresentam risco mais elevado para a cirurgia bariátrica. Assim, o paciente perderia peso por um período de 4 a 6 meses, sendo operado logo após, pois sabemos que o resultado não se mantém por muito tempo neste grupo de pacientes. Cabe uma ressalva neste caso, na nossa clínica sempre tentamos tratamento clínico inicial, evitando o custo do balão para o paciente e temos tido excelente resultado no preparo do nosso grupo.

5-Por fim, não devemos esperar milagres, não existem tratamentos que façam emagrecer como muitos procuram. O sucesso dos tratamentos da obesidade, seja o Balão intragástrico ou a cirurgia Bariátrica dependem exclusivamente da adesão dos pacientes, das mudanças de hábitos alimentares, da retomada de atividade física regular, somente assim atingiremos o controle da doença obesidade que infelizmente até o momento , e mesmo num futuro próximo, não conhecemos a cura, e que a cada dia acomete mais pacientes em todo o mundo.

Artigo escrito pelo Dr. Michel Menezes

 

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